Márcio Lopes: o sonho reinventa a vinha
Quinze anos depois do início do projeto, o produtor que ousou fazer diferente em duas regiões históricas continua a provar que o horizonte se constrói passo a passo e quase sempre à mão.
A frase não surgiu durante uma convenção de especialistas, entrevista ou celebração. Foi dita com a simplicidade absoluta das crianças, algures em 2022, quando Sofia, então com sete anos, declarou com autoridade: “O meu pai é um sonhador… e consegue que aconteça!” Márcio Lopes encara o episódio com um sorriso contido, desses que ficam no corpo mais tempo do que o próprio momento. Talvez porque, no fundo, nada resuma melhor o caminho que tem percorrido do que essa imagem: a de alguém que sonha, sim, mas que só descansa quando dá forma concreta ao sonho. Mesmo que isso implique risco, cansaço, noites acordado e uma dose generosa de teimosia.

Quinze anos depois da criação das marcas Pequenos Rebentos e Proibido, o projeto Márcio Lopes Winemaker tornou-se um dos casos mais consistentes de afirmação pessoal no vinho português. Não é apenas o volume de trabalho, nem o número crescente de vinhas recuperadas, nem os prémios nacionais e internacionais; é sobretudo o modo como Márcio tem procurado, garrafa a garrafa, resgatar identidades esquecidas, devolver voz a vinhas velhas e mostrar que o vinho contemporâneo também se escreve com memória.
A história, no entanto, começa muito antes.
O antes: aprender a fazer, aprender a ver
Márcio foi desenvolvendo, desde tenra idade, o gosto pelo Vinho do Porto, mas apaixonar-se ia por Melgaço, no coração dos Vinhos Verdes, após uma vindima com Anselmo Mendes. A passagem por Melgaço marcou-o de forma duradoura, tanto que parte da sua vida pessoal acabaria por se ligar àquela terra.
Foi numa Festa do Alvarinho, em 2006, que conheceu Cláudia, que alguns anos mais tarde se tornaria sua mulher. Casaram em Melgaço. As duas filhas, Sofia e Luísa, nasceram com o território já inscrito na história familiar. A relação emocional com a sub-região de Monção e Melgaço já estava ali, mesmo antes de ter forma profissional própria.
A passagem pela Austrália deu-lhe mundo, mas o regresso a Portugal ditou um recomeço do zero. Foi neste cenário que, em 2010, surgiu o projeto Márcio Lopes Winemaker, com as duas primeiras duas marcas próprias: Pequenos Rebentos, nos Vinhos Verdes, e Proibido, no Douro. Não havia plano de negócios, estratégia desenhada ou investidores à vista. Havia vontade, conhecimento técnico e um impulso interior que já não o deixava sossegar.
Contrariamente ao que muitos possam imaginar, Márcio não tinha uma fixação prévia por vinhas velhas. “Foi o que apareceu. Eram as vinhas que sobravam, as que ninguém queria trabalhar, as mais difíceis, mais incertas”. Mas foi precisamente aí que encontrou aquilo que procurava sem saber: carácter, irregularidade benigna, profundidade aromática, histórias acumuladas em cada cepa.

Os primeiros Proibido nascem deste fascínio, quase científico, quase emocional, pelas vinhas antigas do Douro. Pequenos Rebentos, nos Vinhos Verdes, evolui numa direção semelhante: aproveitar o património que estava disperso, por vezes em risco, e convertê-lo em vinhos puros, minimalistas, diretos, sem artifícios.
O ADN do projeto cristaliza-se, então, muito cedo: trabalhar apenas onde existe verdade, mesmo que seja mais difícil, mais caro, mais arriscado.
Esse risco, porém, revelou-se fundador. Com o tempo, Márcio tornou-se uma das referências nacionais na recuperação de vinhas velhas, e isso abriu-lhe portas que nunca tinha imaginado.

15 anos a crescer, a experimentar, a insistir
O crescimento não foi feito de saltos súbitos. Foi feito de persistência. Ano após ano, Márcio continuou a recuperar parcelas abandonadas, a experimentar castas tardias, a vinificar de formas menos convencionais, a lançar edições curtas, quase artesanais, que rapidamente se tornaram cobiçadas.
Há uma década, começou a ganhar forma uma ambição antiga: a de trabalhar a partir de propriedades próprias. A aquisição da Quinta do Pombal foi o primeiro grande passo. Ali nasceram os campos experimentais e ali nasceram alguns dos vinhos que hoje melhor representam a estética do produtor.
Pelo caminho, a expansão para novos territórios foi acontecendo de forma orgânica. A entrada na Ribeira Sacra (Galiza), com o projeto Telégrafo, por exemplo, foi uma dessas decisões que parecem inevitáveis apenas depois de tomadas. Um meio hectare difícil, inclinado, de baixíssima produção, mas de uma beleza crua e desarmante. “São vinhas que nos obrigam a estar lá. Não se fazem à distância”.

Reconhecimento, expansão e novas frentes
Os últimos anos trouxeram consolidação e ambição renovada. O Proibido Grande Reserva 2017 foi incluído no Top 100 Wine Discoveries 2020 da Wine Advocate, de Robert Parker. Em 2023 e 2025, o seu projeto foi incluído nas TOP 100 Premium Wine & Spirits Brands dos Luxury Lifestyle Awards, que o colocou entre as marcas de vinho mais distintivas do panorama internacional. E pelo meio, em 2024, surge um marco decisivo: a aquisição da Quinta do Malhô, no Douro.
A propriedade duriense abre, entre outras, duas portas aliciantes para o futuro: a criação de Vinho do Porto de identidade própria, e o desenvolvimento de um projeto de enoturismo que permita mostrar, com tempo e proximidade, aquilo que hoje é feito de forma quase invisível para o grande público. O trabalho diário na vinha, o impacto da viticultura sustentável, o lado humano da produção.


A diversificação continuou com o lançamento do primeiro azeite biológico, o Proibido Olival Centenário, produzido a partir de oliveiras centenárias do Vale do Rio Torto. E o futuro imediato promete ser dos mais emocionantes de sempre: entre o final de 2025 e o início de 2026, são lançados três vinhos de parcela, todos com forte carga simbólica. O Proibido Vinha Velha do Pombal, expressão máxima do trabalho naquela quinta; o Proibido Vale do Rio Pinhão, com origem numa encosta recuperada quase cepa a cepa; e o Proibido Vinha da Luísa, um 100% Alvarelhão, oriundo do segundo campo experimental da Quinta do Pombal. Uma vinha plantada em 2019, batizada com o nome da filha mais nova e que dará origem ao primeiro vinho com a sua assinatura.
Sonhar é fácil. Construir é que dá trabalho.
Apesar do crescimento, da notoriedade e do aumento de produção, Márcio mantém uma relação profundamente pessoal com o vinho. Continua a ser ele quem calça as botas, quem visita cada produtor de uvas, quem acompanha cada parcela, quem perde horas a observar a evolução de uma vinha sob onda de calor ou de um talhão antigo prestes a rebentar.


Continua a defender a mínima intervenção, a recusar herbicidas, a trabalhar com tração animal sempre que faz sentido, a reduzir o peso das garrafas, a diminuir o impacto ambiental do packaging. Continua a tratar os produtores como parceiros, pagando acima da média regional. E continua a sonhar.
“É um equilíbrio difícil: o coração puxa sempre por mais projetos, mais vinhas, mais experiências. A razão diz que é preciso gerir riscos. Mas a verdade é que nunca perdi a vontade de fazer diferente”. E talvez seja por isso que a frase da filha ressoa tanto: porque descreve exatamente este movimento contínuo entre sonho e obra, utopia e chão, imaginação e pragmatismo.
Quinze anos depois, o projeto Márcio Lopes Winemaker não é apenas uma marca. É uma visão e, sobretudo, uma responsabilidade. A responsabilidade de fazer bem, de fazer justo e de fazer verdadeiro. E de continuar a sonhar, mas sempre com os pés na terra e as mãos na vinha.
Conheça os mais recentes lançamentos:
Proibido Vale do Rio Pinhão DOC Douro tinto 2022
Proibido Vinha Velha do Pombal DOC Douro tinto 2022
Proibido Vinha da Luísa DOC Douro tinto 2022

Vinha do enforcado
A vinha do enforcado é um método ancestral de condução típico da região dos Vinhos Verdes, em que as videiras crescem apoiadas em árvores, podendo atingir seis a sete metros de altura. Esta técnica permitia aproveitar o terreno agrícola para outras culturas e afastar os cachos da humidade do solo.
É um sistema trabalhoso, totalmente manual, e foi ao recuperar uma dessas vinhas que Márcio Lopes produziu o Pequenos Rebentos Selvagem, fermentado em ânfora e considerado um dos mais emblemáticos exemplos de como o passado pode inspirar o futuro.

Primeiro azeite nasce de oliveiras centenárias no Douro
Márcio Lopes lançou recentemente o seu primeiro azeite biológico, o Azeite Proibido Olival Centenário, produzido a partir de oliveiras centenárias do Vale do Rio Torto, no Douro. Prensado a frio e colhido manualmente, reflete uma filosofia de respeito pela terra e tradição.

Com variedades autóctones e acidez até 0,6%, apresenta perfil aromático intenso e grande complexidade. A primeira produção gerou mil garrafas, já disponíveis no mercado.
Fotografias: D.R. / Ernesto Fonseca













