Reguengos Raízes: O regresso à essência
O final de 2025 marca uma viragem na história da CARMIM com o lançamento da nova marca Reguengos Raízes, uma microprodução que representa muito mais do que dois vinhos – é uma afirmação de identidade, um regresso às castas esquecidas, às vinhas velhas e ao saber ancestral de Reguengos de Monsaraz. Raízes branco 2024 e Raízes rosé 2024 são as primeiras expressões de um projeto que nasce com ousadia e com alma, para ocupar o lugar que a cooperativa merece nas cartas dos restaurantes mais exigentes.
Lançar Reguengos Raízes é um passo simbólico, mas profundamente estratégico para a CARMIM, uma das maiores e mais emblemáticas cooperativas do país. Criada em 1971, a CARMIM conta hoje com cerca de 800 viticultores associados e mais de 3000 hectares de vinha. Uma história coletiva, feita de gerações, mas que durante demasiado tempo viveu à sombra da “maldição do vinho da cooperativa”, como reconhece, com franqueza e ambição, João Caldeira, diretor-geral da empresa.
“Às vezes temos de tratar as dores… uma delas tem a ver com o facto de vivermos com a maldição do vinho da cooperativa. Resulta de uma perceção de marcas imperfeitas, que não têm narrativas bonitas, ascendência mapeada de gerações, sustentabilidade bem contada. Com Raízes queremos construir uma nova narrativa, ligada à terra, a Reguengos. Este passo prende-se com irmos às nossas origens, à cultura do vinho que se vive ali”, partilhou.

A apresentação aconteceu num ambiente de proximidade, num almoço no JNcQUOI Club, em Lisboa, com curadoria do Chef Filipe Carvalho. Foi o momento escolhido para dar a provar os primeiros dois vinhos da gama – o branco e o rosé da colheita de 2024 – bem como o lote privado do futuro tinto, ainda em estágio. O evento contou com a presença de profissionais do setor e imprensa especializada, convidados a mergulhar numa nova faceta da CARMIM: mais ousada, mais precisa, mais próxima da terra.
Raízes branco 2024 nasce da Vinha do Monte Novo, plantada em 1979 em solo granítico franco-arenoso, com exposição Este-Oeste. É feito a partir das castas Arinto e Roupeiro, exclusivamente a partir de mosto lágrima. Fermenta e estagia durante 9 meses em barricas de carvalho francês de terceiro uso, ganhando textura, profundidade e um perfil fortemente gastronómico. A produção é muito limitada: apenas 1.890 garrafas, com um preço de referência de 49€.

“Selecionámos os cachos nas vinhas, extraímos o mosto lágrima, usámos barricas de segundo uso para preservar frescura e mineralidade. O nosso objetivo é garantir prazer à mesa e longevidade. Este vinho respondeu ao que queríamos e o trabalho de adega limitou-se a deixar expressar ao máximo as suas características”, explicou o enólogo Tiago Garcia.
Raízes rosé 2024 é uma raridade: um monovarietal de Tinta Caiada, proveniente de uma vinha de sequeiro com 40 anos, “provavelmente o único rosé do país com esta casta”, observou Rui Veladas, enólogo. Tal como o branco, fermentou e estagiou 9 meses em barricas usadas de carvalho francês. Produzido também a partir de mosto lágrima, apresenta-se elegante, fresco e com um apelo vínico inegável. Apenas foram engarrafadas 1.122 unidades, com um PVP de 30€.

Ambos os vinhos partilham a mesma vinha, mas com interpretações distintas. A enologia, a cargo de Rui Veladas e Tiago Garcia, é de precisão: procura-se a expressão do terroir, o caráter das parcelas, o respeito pelo ciclo da vinha, e o mínimo de intervenção em adega. “É uma tentativa de recuperarmos o que era uma realidade das vinhas da CARMIM”, reforçou Tiago Garcia.
O terceiro elemento da trilogia Raízes – o Tinto 2024 – será lançado mais tarde, para finais de 2026. A prova do lote privado revelou um vinho ainda em afinação, mas com grande potencial: exuberante, floral, vegetal, com frescura e elegância. Será elaborado a partir da vinha mais velha de Carignan da região, com Trincadeira selecionada. A vinificação inclui barricas novas, barricas usadas e talhas. “Estamos à procura de frescura”, sublinhou Rui Veladas.

Mais do que vinhos, Raízes apresenta-se como uma nova forma de olhar para o que sempre esteve ali. “Queremos ter o atrevimento e a ousadia de fazer estes vinhos para preservar a essência da nossa marca e da nossa origem. Não há versões de um mundo que não existe – o que existe é a vontade de melhorar o rendimento dos nossos viticultores, e isso só acontece com marcas de valor, credibilidade e notoriedade”, concluiu João Caldeira.
Raízes é o início de um novo capítulo na história da CARMIM — um regresso à terra, ao que é puro e autêntico. Um projeto com propósito, com origem e com futuro.
Fotografias: D.R.
Maria Helena Duarte
Faz do vinho uma missão. É provadora e crítica de vinhos, a nível nacional e internacional, e membro da FIJEV. No Diário de Notícias lançou a revista Beberes e em 2006 fundou a revista Paixão Pelo Vinho, um desafio que perdura desde então fruto de muita determinação, trabalho de equipa e, claro, muita paixão. Quando não está a provar vinhos, está a escrever, a organizar eventos e dar vida a novos projetos. É Confrade de Honra da Confraria Enófila N.ª S.ª do Tejo, da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto e da Confraria da Cerveja, reafirmando com orgulho as suas três paixões: vinho, gastronomia e cerveja.













