Vinho com alma nasce de Residência de Enólogos: União entre Arte, Território e Inclusão
Nas Terras de Sicó, a Fundação ADFP reinventou a enologia com uma residência artística onde vinhos de autor nascem lado a lado com um propósito social. Enólogos convidados deixam a sua assinatura em edições limitadas que revelam criatividade, terroir e humanidade – provando que, aqui, cada garrafa é também um gesto de inclusão.
in Revista Paixão Pelo Vinho ed. 100 | Texto de Alexandra Costa | Fotografias de Ernesto Fonseca
Na encosta calcária das Terras de Sicó, entre aldeias e vinhas discretas, nasce um projeto que conjuga vinho e propósito social. Sob a égide da Fundação ADFP (Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional), é uma Instituição de Solidariedade Social, sem fins lucrativos com raízes em Miranda do Corvo – ergue-se a Residência Artística de Enólogos: um espaço de cocriação onde enólogos convidados trabalham lado a lado com o enólogo residente para gerar vinhos de autor, de carácter experimental, mas enraizados no terroir local. O resultado são edições limitadas, vinhos com alma, que não nascem apenas da vinha e da adega, mas de uma visão que une agronomia, inclusão social e identidade regional. A cada colheita, reforça-se a aposta numa viticultura com… propósito: provar que a excelência vínica e o compromisso social podem caminhar juntos. Os rótulos resultantes – com nomes como “Rabarrabos” ou “Quadrivium” – são já reconhecidos em concursos internacionais, e transformam cada garrafa num “brinde à diferença” e à identidade das Terras de Sicó.


Numa era em que o consumidor de vinho procura cada vez mais autenticidade, propósito e uma história genuína por detrás do rótulo, uma iniciativa em Portugal eleva estes conceitos a um novo patamar. A Fundação ADFP, sediada em Miranda do Corvo, reinventa o conceito de produção vinícola com a sua Residência Artística de Enólogos, um projeto pioneiro e profundamente humanista.
Esta proposta singular transcende a criação de vinhos de excelência, entrelaçando-a de forma indissociável com uma robusta e comprovada missão de inclusão social. O desafio lançado a enólogos de renome é audacioso: criar em condições únicas, partilhando o seu talento e sensibilidade num ambiente onde cada garrafa conta uma história de superação, colaboração e propósito.
É uma história de como a enologia pode ser uma ferramenta de transformação, não apenas da uva, mas da própria vida, provando que os vinhos mais memoráveis são, invariavelmente, aqueles que possuem uma alma.
A arte de criar vinhos com alma
Em pleno coração da sub-região Terras de Sicó, um território de vinhas ancestrais que se estende entre as serras da Lousã e de Sicó, um projeto vitivinícola distingue-se não apenas pela qualidade emergente dos seus vinhos, mas pela sua missão. A Fundação ADFP (Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional), uma instituição com um longo e respeitado historial no apoio a populações vulneráveis, aventura-se no mundo da enologia com uma proposta de valor ímpar: aliar a excelência enológica à inclusão social ativa. O expoente máximo desta filosofia é a sua Residência Artística de Enólogos, uma iniciativa que convida profissionais de diferentes regiões vinícolas a mergulharem num ambiente de criação onde o ritmo é ditado pela natureza e, acima de tudo, pelas pessoas que dão vida ao projeto. Este é um modelo único em Portugal, uma iniciativa que não tem paralelo em nenhuma outra instituição do país, consolidando a Fundação ADFP como uma instituição verdadeiramente inovadora no panorama português.
Para compreender a profundidade da Residência de Enólogos, é imperativo conhecer a instituição que a alberga. A Fundação ADFP é uma das mais relevantes Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do país, com um raio de ação que abrange desde o apoio a crianças e jovens em risco, a idosos, pessoas com deficiência, doença mental, refugiados e sem-abrigo. O seu modelo de intervenção assenta na criação de respostas sociais sustentáveis, que geram emprego e promovem a autonomia. O projeto vitivinícola, assim como o Parque Biológico da Serra da Lousã ou as unidades hoteleiras que detém, são exemplos de “empresas de inserção”, onde a atividade económica serve como ferramenta para a inclusão social.

É neste enquadramento que a produção de vinho ganha um novo significado. Cada videira plantada, cada cacho de uvas colhido e cada garrafa rotulada são parte de um ciclo terapêutico e de capacitação. Os utentes da fundação, que participam ativamente em todo o processo, encontram na adega e na vinha um espaço de valorização, onde o seu trabalho é essencial e visível. O vinho torna-se, assim, um produto que carrega em si a dignidade e o esforço de quem o produziu, transformando o ato de consumo numa forma de participação cívica. Como refere Francisca Pereira, uma das enólogas convidadas, “os princípios da fundação” são o primeiro e mais importante motivo para aceitar o desafio, a possibilidade de “dar um bocadinho de nós à fundação, que depois a fundação irá dar a outras tantas pessoas”. Esta dimensão altruísta é o verdadeiro cimento que une os enólogos ao projeto. A Fundação ADFP é hoje o maior produtor da sub-região Terras de Sicó, uma posição que conquistou através de um trabalho consistente e de uma aposta clara na qualidade.
Como tudo começou
A visão para a residência partiu de Gonçalo Moura da Costa, o enólogo residente da Fundação. Com 42 anos e natural da Bairrada, Gonçalo, um agrónomo de formação com uma paixão pela viticultura, sentiu a necessidade de injetar novas perspetivas no projeto. “A Fundação ADFP tem um problema grave, porque tem muito poucos técnicos na área da enologia e da agronomia. Significa que a massa crítica entre nós é muito mais pequena, porque não estamos entre pares”, explica. “É muito fácil dizer que o meu vinho é fantástico quando não temos mais ninguém a discutir sobre ele”.
A residência nasceu, portanto, de um duplo anseio: por um lado, trazer “massa crítica” para a adega, fomentando o debate, a troca de ideias e a inovação; por outro, reforçar o carácter diferenciador de um projeto que é, na sua essência, incomparável. “Somos um projeto que não é igual a nada em Portugal. E, por isso, tem de ser diferenciador também nesta parte”, afirma Gonçalo. A ideia de convidar enólogos estabelecidos, com as suas próprias empresas e reputações, para produzirem um vinho de forma voluntária, num contexto tão atípico, revelou-se um desafio fascinante e um poderoso catalisador de criatividade. Para além do enriquecimento técnico, a residência funciona como uma plataforma de promoção, onde os enólogos convidados se tornam embaixadores da causa, levando “a alma do projeto” para as suas redes e círculos profissionais. Esta estratégia de envolvimento de profissionais externos tem-se revelado extremamente eficaz, tanto na melhoria da qualidade técnica dos vinhos, como na promoção e visibilidade do projeto.

Enologia de coração aberto: o desafio humano
O que torna esta residência verdadeiramente única é o seu método de trabalho. Na adega da Fundação ADFP, grande parte das tarefas é executada por utentes da instituição. Esta realidade obriga a uma redefinição completa da prática enológica, substituindo a rigidez dos processos industriais pela flexibilidade, paciência e, acima de tudo, pela empatia.
“O conceito de que nem sempre temos o que queremos é mais real do que as pessoas pensam. E não devemos encarar o não ter certas coisas como algo negativo, mas como um desafio a superar. É o que os utentes aqui fazem todos os dias”, reflete o enólogo Igor Lima.
Aliás, a imprevisibilidade é a norma. Os enólogos, habituados a cronogramas rigorosos e a vindimas calculadas ao milímetro para atingir o “ponto ótimo” de maturação, aprendem a adaptar-se a uma nova cadência. “Não há aquela coisa de ‘vamos vindimar neste ponto ótimo de açúcares e acidez’. Não, isso não acontece. A vindima acontece neste dia e as uvas chegam”, descreve Gonçalo Moura da Costa. Esta aparente limitação transforma-se numa poderosa fonte de aprendizagem e resiliência, obrigando os profissionais a saírem da sua zona de conforto, a repensar técnicas e a encontrar soluções inovadoras com os recursos disponíveis. É uma lição de humildade que transcende o domínio da enologia, tocando aspetos profundos da condição humana.

Francisca Pereira, outra das enólogas residentes, corrobora esta visão: “A dinâmica aqui da adega às vezes nem sempre é tão fácil, mas acho que isso também nos leva a ter sempre a vertente humana. Isso aqui é essencial.” A noção de tempo, tão crítica na enologia moderna, é aqui relativizada. “Nós vimos para aqui a pensar, ‘ok, hoje é para fazer isto’. E às vezes começa de manhã, outras vezes não dá para começar de manhã, é só depois do almoço, outras vezes já não dá e tem de passar para o dia seguinte”, explica. Pedro Alves, o mais jovem do grupo, resume a experiência de forma eloquente: “a noção de tempo é perdida aqui. (…) Temos de estar sempre simpáticos e de coração aberto e perceber que aquela pessoa que está à nossa frente não está a pensar como nós, e tem que ser indicada e ajudada de outra forma”. É um exercício constante de humildade e humanidade, onde um simples “mais cinco” (high-five) no final de uma tarefa bem-sucedida tem um valor imensurável”. Estes momentos, aparentemente pequenos, revelam-se profundamente significativos para os utentes, reforçando a sua autoestima e sentido de pertença.
Os artistas residentes
A força da residência reside na diversidade e no talento dos enólogos que aceitam o desafio. Cada um traz a sua bagagem, a sua filosofia e a sua sensibilidade, enriquecendo o projeto de forma indelével.
| Enólogo Residente | Projeto Principal | Região de Origem | Contribuição e Filosofia na Residência |
| Igor Lima | Beta Wines | Bairrada | Focado em criar vinhos “fora da caixa”, como o Rosé de Jaen. Vê a residência como uma lição de empatia e superação, adaptando a sua enologia aos desafios humanos. |
| Francisca Pereira | Alinhavo Wines | Dão / Bairrada | Pioneira da residência, trabalha em dupla com António Teixeira. Procura a liberdade criativa para experimentar, tendo criado o primeiro branco de tintas da região. |
| Pedro Alves | Quanta Terra | Douro | Representa a nova geração. A residência foi a sua primeira incursão na Bairrada e na casta Baga, um desafio que abraçou como uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional. |
| António Teixeira | AZ3OENO | – | Parceiro criativo de Francisca Pereira, foi corresponsável pela criação do primeiro Pet-Nat da região de Terras de Sicó, marcando o início das experimentações na residência. |
Igor Lima, com 29 anos, é um jovem talento da Bairrada. O seu percurso é curioso: sonhava ser cozinheiro, mas um primo sommelier despertou-lhe o interesse pelos vinhos aos 15 anos. Hoje, tem o seu próprio projeto, Beta Wines, e vê na residência uma oportunidade de ir além do convencional. “A ideia foi criar vinhos fora da caixa e fora do contexto normal, até porque a Fundação em si não tem um contexto normal”, afirma. Para ele, o projeto é uma fonte de crescimento pessoal, uma forma de “ajudar num sentido mais prático e com um valor real”. Igor representa a geração de enólogos que compreende que o vinho é mais do que um produto comercial; é uma expressão cultural e social.
Francisca Pereira entrou no mundo dos vinhos “por uma brincadeira”, através de uma amiga enóloga, mas a paixão ficou. Com experiência em várias regiões (Dão, Douro, Beira Interior), lançou o seu projeto pessoal, Alinhavo Wines, inspirado no nascimento da sua filha e no seu gosto pela costura. Foi uma das fundadoras da residência, juntamente com António Teixeira. Para ela, os dois pilares do projeto são claros: “Inicialmente, e o primeiro ponto, são os princípios da fundação. […] E depois, claro, a parte criativa, a parte de poder fazer enologia. Quem faz enologia por paixão, por gosto, termos a liberdade de criarmos o que quisermos é completamente fascinante”. Francisca é um exemplo de como a paixão genuína pela enologia pode levar a uma vida dedicada à exploração de diferentes regiões e estilos vinícolas.
Pedro Alves, com apenas 25 anos, traz a herança do Douro, onde trabalha lado a lado com o seu pai no projeto Quanta Terra. A residência foi um salto para o desconhecido: uma nova região, uma nova casta (Baga) e um método de trabalho radicalmente diferente. Pedro encara a experiência com maturidade e humildade. “A noção de tempo é perdida aqui”, admite. “Tenho 25 anos, sou um puto, sou um garoto, e ter a experiência de viver isto aqui é importante. […] É algo que consigo levar e consigo perceber a palavra solidariedade”. Pedro representa a nova geração de enólogos que reconhecem o valor da inclusão social e da responsabilidade corporativa.

Quadrivium: a marca que mostra que o vinho é arte e inclusão
A partir da segunda edição da residência, os vinhos criados pelos enólogos convidados passaram a ser engarrafados sob uma marca própria: Quadrivium. O nome, que em latim significa “o lugar onde quatro caminhos se encontram”, remete para as quatro artes liberais do conhecimento na Idade Média (aritmética, geometria, música e astronomia). A escolha é simbólica, representando a união dos quatro enólogos (ou duplas de enólogos), das suas diferentes origens e saberes, num projeto comum.
Estes vinhos são, por definição, edições limitadas e experimentais. O Quadrivium Branco 2024, por exemplo, assinado por Francisca Pereira e António Teixeira, é o primeiro vinho branco feito de uvas tintas (Aragonez, Trincadeira e Touriga Nacional) na história da região. O Quadrivium Rosé 2024, da autoria de Igor Lima, é um monovarietal da casta Jaen, explorando a elegância e frescura desta variedade. Antes destes, a dupla Pereira/Teixeira já tinha inovado com o primeiro Pet-Nat (Pétillant Naturel) de Terras de Sicó.
Cada garrafa de Quadrivium é, assim, mais do que um vinho: é um testemunho de um processo criativo, um gesto de inclusão e um brinde à diferença. A marca Quadrivium tornou-se rapidamente uma referência de inovação e qualidade na região, consolidando o reconhecimento da Fundação ADFP como um agente transformador no panorama vinícola português.
Futuro da Residência passa por novos horizontes
O sucesso e o entusiasmo gerados pela residência já alimentam planos para o futuro. Gonçalo Moura da Costa revela a intenção de levar o conceito para outras geografias onde a fundação tem vinhas, nomeadamente a Beira Interior. “A próxima residência artística, e a Francisca disse que não se importaria… Vai ser lá”, adianta, referindo-se às vinhas no Fundão.
Esta expansão para a Beira Interior, uma região com condições e desafios distintos, promete trazer novas dinâmicas e oportunidades de experimentação, quer para os enólogos residentes, quer para os utentes locais da fundação. A ideia de levar os “artistas” a diferentes terroirs sob a mesma égide social reforça o caráter inovador e a ambição do projeto, que procura continuamente desafiar fronteiras, tanto geográficas como humanas. A expansão geográfica da residência é um testemunho do seu sucesso e da sua sustentabilidade.
A Residência Artística de Enólogos da Fundação ADFP é um caso de estudo em inovação social. Demonstra que é possível construir um modelo de negócio que não só é sustentável, como gera um valor que transcende o lucro financeiro. O projeto oferece aos utentes da fundação um propósito, um ofício e uma remuneração, promovendo a sua autoestima e integração na comunidade. Para os enólogos, é uma experiência transformadora que os reconecta com a essência do seu ofício e com o seu papel na sociedade.

O desejo de ver este modelo replicado é um sentimento partilhado por todos os envolvidos. “Gostava que este tipo de projetos houvesse mais e cada vez fosse mais replicado, porque não só num contexto de vinho, mas num contexto geral de negócio”, expressa Igor Lima. Esta aspiração reflete uma compreensão profunda de que a inclusão social e a excelência comercial não são objetivos contraditórios, mas complementares.
Ao escolher um vinho da Fundação ADFP, seja um da marca Quadrivium ou o Paixão Natural do enólogo residente, o consumidor participa ativamente nesta história. Não está apenas a adquirir uma bebida de qualidade, produzida em lotes exclusivos e com uma forte identidade de terroir. Está a apoiar uma causa, a valorizar um território e a brindar a um projeto que, garrafa a garrafa, prova que os melhores vinhos são, talvez, aqueles que têm mais alma. A Residência de Enólogos da Fundação ADFP é, portanto, muito mais do que um projeto vitivinícola inovador; é um manifesto de que é possível criar valor económico, qualidade artística e impacto social simultaneamente.

Terras de Sicó: um terroir que desperta
A sub-região Terras de Sicó, onde a Fundação ADFP se insere, é um território de grande potencial, mas ainda pouco conhecido do grande público. Oficializada em 1993, a região possui um património vitícola valioso, com muitas vinhas velhas e castas autóctones. Historicamente, os seus vinhos eram vendidos a granel, sem a valorização que mereciam. O trabalho da Fundação, enquanto maior produtor da região, tem sido fundamental para mudar este paradigma, apostando na qualidade e na identidade dos vinhos de Sicó. O objetivo último, partilhado por outros produtores locais, é a criação da futura DOC Sicó, um selo de qualidade que ajudará a projetar a região no mapa vinícola nacional e internacional.
As castas presentes nas vinhas da fundação refletem a tradição da região, com predominância de Baga, Touriga Nacional, Trincadeira e Aragonez nas tintas, e Fernão Pires, Bical e Arinto nas brancas. A aposta na experimentação, trazida pela residência, permite explorar o potencial destas e de outras castas de formas inovadoras, como a vinificação em branco de uvas tintas ou a criação de vinhos de colheita tardia. Esta diversidade de castas oferece aos enólogos residentes uma paleta rica para a sua criatividade.

Fundação ADFP: a promover a inclusão há 37 anos
Em Miranda do Corvo, uma instituição nascida da vontade de cidadãos transformou-se numa das maiores fundações de solidariedade social do país. A Fundação ADFP, liderada pelo médico e empreendedor social Jaime Ramos, é um exemplo de inovação, com um impacto que se estende da infância à terceira idade, promovendo a inclusão e o desenvolvimento local.
Fundada em novembro de 1987, a Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP) é hoje uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) de utilidade pública que se destaca no panorama nacional. Com sede em Miranda do Corvo, a sua génese não reside numa grande fortuna ou numa iniciativa estatal, mas sim na vontade de um grupo de cidadãos, liderados por Jaime Ramos, de dar resposta às necessidades sociais do seu território.
Jaime Ramos, médico de profissão, é a força motriz por trás deste projeto. A sua visão, como partilhado na entrevista que serviu de base a este artigo, foi a de criar uma organização que olhasse para as potencialidades de cada um. “O objetivo da Fundação ADFP não é diagnosticar deficiência. A nossa prioridade é descobrir e valorizar talentos em pessoas com desvantagens”, pode ler-se no site da instituição.
O crescimento da Fundação ADFP ao longo de quase quatro décadas é notável. O que começou como um projeto focado na formação profissional para pessoas com dificuldades de aprendizagem, expandiu-se para uma rede de respostas sociais que abrange todas as fases da vida. Atualmente, a fundação emprega cerca de 847 colaboradores e presta apoio a mais de 8.500 utentes mensalmente.
Para além destes números, a fundação gere 12 residências com 520 residentes, que acolhem desde mulheres grávidas vítimas de violência a idosos com demência, passando por crianças em risco e pessoas com deficiência. Nomes como “Gratidão”, “Esperança” ou “Coragem” refletem os valores que norteiam a instituição.
O garante da sustentabilidade financeira
Um dos aspetos mais distintivos da Fundação ADFP é a sua aposta na diversificação de fontes de rendimento para garantir a sustentabilidade. Em vez de depender exclusivamente de subsídios, a fundação criou um ecossistema de projetos de economia social que geram receita, reinvestida depois na sua missão. O Parque Biológico da Serra da Lousã é o exemplo mais emblemático.
Este parque temático, que apresenta a mais completa mostra de vida selvagem de Portugal, não só atrai milhares de visitantes como também serve de plataforma de inclusão laboral para pessoas com deficiência ou doença mental. A ele juntam-se outros projetos como hoteis, restaurantes, um museu dedicado à evolução do conhecimento (Espaço da Mente) e o singular Templo Ecuménico Universalista, um espaço de diálogo e celebração dos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Em entrevista à Paixão Pelo Vinho, Jaime Ramos recorda como a agricultura e a viticultura surgiram como uma forma de criar atividades ocupacionais terapêuticas, a par de apostas pioneiras como a hipoterapia, que levou um cavaleiro da Fundação a representar Portugal nos Jogos Paralímpicos.
Modelo de cidadania
A Fundação ADFP define-se como uma fundação cívica e comunitária. Os seus órgãos sociais são compostos por voluntários não remunerados e a sua ação pauta-se pela promoção da coesão social. Com 21% de imigrantes entre residentes e colaboradores, a instituição é também um exemplo de integração.
Com 37 anos de história, a obra de Jaime Ramos e da sua equipa é um testemunho do poder da sociedade civil na construção de um futuro mais justo. Uma fundação que, nascida em Miranda do Corvo, se tornou uma referência na economia social, provando que é possível aliar a solidariedade à sustentabilidade.













